Amiga é barriga solidária de casal no interior de SP e caso estimula debate sobre vínculos após o parto; entenda
Casal realiza sonho da paternidade com barriga solidária A chegada de um filho por meio da barriga solidária envolve muito mais do que procedimentos médicos ...
Casal realiza sonho da paternidade com barriga solidária A chegada de um filho por meio da barriga solidária envolve muito mais do que procedimentos médicos e fertilização in vitro: antes mesmo da gravidez, quem participa do processo precisa lidar com expectativas e decisões que podem repercutir durante e depois do nascimento. Para além das questões legais e clínicas, existe uma dimensão emocional que começa antes mesmo da transferência do embrião: como ficam os vínculos entre a mulher que gestou, os pais e a criança? 📲 Participe do canal do g1 Rio Preto e Araçatuba no WhatsApp Amiga gera bebê por barriga solidária e realiza sonho da paternidade de casal em Rio Preto A discussão ganhou espaço em São José do Rio Preto (SP) depois que o juiz Marcel de Ávila Soares Marques, de 42 anos, e o marido, o procurador João Paulo Lefundes Coelho, de 40, realizaram o sonho da paternidade com a ajuda de uma amiga da família. Marina nasceu em março deste ano, após uma fertilização in vitro. Talita Miranda, de 39 anos, se ofereceu para gestar a bebê por meio da barriga solidária. Ela é doula, educadora perinatal, casada e mãe de dois filhos. 👶🔍 A barriga solidária é uma técnica de reprodução assistida em que uma mulher cede temporariamente o útero para gestar um embrião que será criado para outra pessoa ou casal. No Brasil, as regras éticas são estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo a resolução atualmente em vigor, a gestação de substituição pode ser utilizada quando há uma condição que impeça ou contraindique a gestação e também em situações previstas para pessoas solteiras e uniões homoafetivas. A avaliação psicológica também faz parte desse processo. O CFM determina que a saúde física e mental de todos os envolvidos seja avaliada antes da realização da gestação por barriga solidária. Marina, filha do juiz Marcel de Ávila Soares (à esquerda) e do procurador João Paulo Lefundes Coelho (à direita), nasceu após ser gerada por Talita Miranda (ao centro) Aline Francesco/Divulgação Antes do procedimento, os envolvidos passaram por avaliações médicas e psicológicas. A doadora dos óvulos, que é prima de João Paulo, também participou das etapas do processo. Desse modo, para a psicóloga e psicanalista Marly Terra Verdi, o processo precisa ser pensado antes mesmo do início da gestação, porque envolve mudanças emocionais para todos os envolvidos. O desejo de construir uma família e a disposição de alguém em ajudar nesse processo podem ser experiências positivas. Mas, de acordo com Marly, isso não significa que as dificuldades emocionais devam ser ignoradas. Isso porque, durante a gravidez, a mulher que cede o útero passa pelas transformações físicas e hormonais próprias de uma gestação: ela sente os movimentos, passa pelas mudanças do corpo e vivencia uma experiência que, biologicamente, prepara o organismo para o pós-parto. Psicóloga e psicanalista Marly Terra de São José do Rio Preto (SP) Marly Terra/Arquivo pessoal Segundo Marly, as alterações estão relacionadas à preparação para a amamentação e os cuidados com o bebê. No caso da barriga solidária, existe ainda uma particularidade: a mulher precisa elaborar que aquele bebê que cresce dentro dela será cuidado e criado por outra pessoa. Depois do parto, porém, o corpo não interrompe imediatamente esse processo. É justamente por isso que, segundo Marly, não é possível prever exatamente como uma mulher vai se sentir depois de entregar o bebê aos pais. Diante disso, Marly ressalta que a separação exige um trabalho psíquico importante. Ela pontua, porém, que não se trata do mesmo tipo de luto vivido diante da perda de uma criança. “É importante que ela possa se desligar desse bebê, fazer essa separação, fazer o luto de um bebê que nasceu, mas que para ela não vai ser o filho”, explica Marly. A ideia, segundo ela, é que a mulher consiga fazer uma separação psíquica do bebê que gestou para que ele possa ser cuidado pelos pais que assumirão a paternidade. Quando isso não é trabalhado, podem surgir conflitos emocionais, especialmente quando a gestante é alguém próximo da família. LEIA TAMBÉM Auxiliar relata coceira intensa e noites sem dormir após surto de sarna humana em creches: 'É insuportável' Ideb 2025: veja ranking de cidades do noroeste de SP que avançaram ou caíram na avaliação da educação 🤱 E a relação com a criança depois do parto? Uma das dúvidas mais comuns em torno da barriga solidária é se a mulher que gestou deve ou não permanecer na vida da criança. Para Marly, não existe uma única resposta e não existe uma regra emocional que determine que a mulher que gestou precisa ou não manter contato com a criança: o contato pode ou não continuar, dependendo da configuração daquela família e de como os envolvidos se sentem diante da nova relação. Em situações em que a gestante já fazia parte da família ou era uma amiga próxima, por exemplo, como o caso de Talita e os pais de Marina, o vínculo anterior continuará existindo. O desafio passa a ser entender como essa relação será reorganizada depois do nascimento. O objetivo, segundo ela, não é necessariamente afastar a mulher que gestou, mas construir uma relação em que os papéis estejam claros e não haja uma disputa pelo lugar de mãe ou de cuidadora da criança. Por isso, o acompanhamento psicológico pode ajudar a estabelecer limites e construir uma relação saudável entre a gestante, os pais e a criança. Talita Miranda deu à luz Marina após ser barriga solidária em Rio Preto (SP) Reprodução/Instagram E os pais? A preparação não deve ficar restrita à mulher que vai gestar. Segundo Marly, os futuros pais também precisam elaborar a chegada do bebê e construir uma imagem da criança que esperam conhecer. Ela explica que, mesmo em uma gravidez convencional, existe uma diferença entre o bebê imaginado durante a gestação e o bebê real que nasce. Na barriga solidária, esse processo pode exigir ainda mais elaboração, já que a gestação aconteceu no corpo de outra mulher. Ao longo da gravidez, Talita publicou nas redes sociais um relato em que diz ter vivido intensamente as transformações físicas e emocionais, mas sem perder de vista o propósito que a levou a participar do processo. Para ela, gerar Marina era uma forma concreta de ajudar a construir uma família e, ao mesmo tempo, uma experiência que precisava ser vivida com consciência sobre os limites de cada papel. “A conexão que construímos foi gerada a partir de muita maturidade emocional, responsabilidade afetiva, delineamento ético e limites claros traçados desde antes do princípio”, afirma Talita. Depois do nascimento, segundo ela, a relação construída durante a gravidez continuou sendo compreendida a partir dos limites definidos desde o início. A experiência, afirma Talita, não foi sobre ocupar o lugar de mãe de Marina, mas sobre participar da realização do sonho de outras pessoas. De acordo com a mulher, entender isso antes de iniciar o processo foi fundamental para que a gestação pudesse ser vivida com tranquilidade e para que, depois do parto, cada um pudesse assumir seu lugar na nova configuração familiar. ‘É preciso adotar o bebê que nasce’ Pais acompanham nascimento de Marina, gerada por Talita por meio da barriga solidária, em Rio Preto (SP) Aline Francesco/Divulgação A psicóloga ressalta que gestar e exercer a maternidade são experiências diferentes. Marly explica que, na perspectiva psicanalítica, mesmo quando uma criança é gerada pela própria mãe, existe um processo de construção do vínculo depois do nascimento. Isso significa, de acordo com ela, que o vínculo parental não “está pronto” unicamente porque existe uma ligação biológica e não se resume à genética: depois que o bebê nasce, os pais precisam construir a relação com aquela criança. Por isso, segundo Marly, também é importante que os futuros pais possam “sonhar o bebê” durante a espera. Ou seja, criar expectativas, imaginar características, pensar na vida que terão com aquela criança e construir, mentalmente, um lugar para ela na família. Talita também descreve a experiência como algo que vai além da gestação em si. Para ela, estar grávida de um bebê que seria criado por outra família significou acompanhar de perto a formação de uma história da qual faria parte, mas em uma posição diferente da maternidade. “Receber um embrião de outros, gerar esse bebê no próprio ventre, sentir todo tipo de transformação, assumir os riscos dessa jornada, ser portal para sua chegada e contemplar a magnitude da formação de uma família diferente da sua é esplêndido, mas definitivamente não é para qualquer um.” Caminho até a gravidez: a história de Marina Marina nasceu no Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de São José do Rio Preto após cerca de três horas de trabalho de parto natural. A bebê veio ao mundo com 50 centímetros, 3,190 quilos e em excelentes condições clínicas. No Dia dos Pais, celebrado no dia 9 de agosto, João Paulo e Marcel contaram ao g1 como foi viver pela primeira vez a data ao lado da filha. O desejo pela paternidade nasceu junto com o relacionamento, que completa 13 anos neste ano, uma vez que iniciou em 2013. Após se mudarem para Rio Preto e conquistarem estabilidade profissional, decidiram concretizar os planos. Talita relatou que decidiu ser a barriga solidária porque a experiência de gestar os dois filhos, atualmente com 13 e 10 anos, foi a mais marcante da vida dela. Como trabalha com saúde reprodutiva e atua como doula, Talita afirmou que sentia saudade da gestação e do parto, mas acreditava que a própria família já estava completa. Por isso, viu na possibilidade de gerar a filha dos amigos uma forma de reviver esse processo e, ao mesmo tempo, ajudá-los a realizar o sonho da paternidade. Barriga solidária: amor, cuidado e acordos que vão além da gestação Arte/g1 Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Rio Preto e Araçatuba VÍDEOS: confira as reportagens da TV TEM