cover
Tocando Agora:

Calor faz besouros machos terem comportamento gay? Estudo analisa efeito do aquecimento

Besouro da espécie Nicrophorus vespilloides, usado no estudo que investiga os efeitos do calor sobre o comportamento sexual dos insetos. Solène Morelle Durant...

Calor faz besouros machos terem comportamento gay? Estudo analisa efeito do aquecimento
Calor faz besouros machos terem comportamento gay? Estudo analisa efeito do aquecimento (Foto: Reprodução)

Besouro da espécie Nicrophorus vespilloides, usado no estudo que investiga os efeitos do calor sobre o comportamento sexual dos insetos. Solène Morelle Durante três dias, pequenos besouros conhecidos por enterrar carcaças de animais foram submetidos a uma onda de calor simulada em laboratório. Quando a temperatura passou de 20°C para 26°C, os pesquisadores perceberam uma mudança: as interações de caráter sexual entre os machos se tornaram mais frequentes. À primeira vista, esse aumento pode sugerir uma mudança de preferência. ➡️ Mas os pesquisadores afirmam que essa interpretação não se aplica ao estudo: em insetos, o comportamento pode estar ligado a falhas no reconhecimento químico entre os indivíduos (entenda mais ABAIXO). 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia A principal hipótese é que o calor tenha afetado os sinais usados pelos besouros para identificar o sexo de outros animais. Assim, com essa comunicação menos precisa, os machos poderiam confundir outros machos com possíveis parceiras. Veja os vídeos que estão em alta no g1 LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo No experimento, a maioria das duplas de machos já apresentou esse tipo de interação mesmo em condições normais. A média, que era de pouco mais de um episódio por dupla a 20°C, praticamente dobrou sob a temperatura mais alta, chegando a cerca de dois. “O que observamos foi um aumento na frequência de interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo sob temperaturas elevadas”, disse ao g1 Solène Morelle, pesquisadora à frente do estudo. Morelle é doutoranda da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, e apresentou os resultados em uma conferência da Sociedade de Biologia Experimental, realizada em Florença, na Itália. A pesquisa foi feita com a espécie Nicrophorus vespilloides, besouros que enterram corpos de pequenos animais, como aves e roedores, e usam a carcaça como alimento para suas larvas. Machos e fêmeas podem cooperar para preparar o alimento, cuidar dos filhotes e defender o local contra outros besouros. Mas para isso, dependem de uma comunicação química presente na superfície do corpo. Essa camada ajuda a evitar a perda de água em ambientes quentes e também carrega informações importantes para o reconhecimento de outros indivíduos. Sob temperaturas mais altas, o organismo pode modificar essa camada para reforçar a proteção contra o calor. A mudança, porém, pode tornar os sinais de reconhecimento menos claros. “Sob estresse térmico, a composição da superfície do corpo pode ser modificada rapidamente para manter sua função de proteção, e isso pode ocorrer às custas das informações contidas no sinal”, destaca Morelle. Solène Morelle observa, em laboratório, a interação sexual entre besouros da espécie Nicrophorus vespilloides. Solène Morelle LEIA TAMBÉM: Espécie achada em esterco de gado pode explicar a origem do 'cogumelo mágico' mais cultivado do mundo Cientistas encontram fóssil de tiranossauro gigante que pode ser parente antigo do T. rex Estudos sugerem que o Sol 'fugiu' do centro da Via Láctea junto com estrelas gêmeas A pesquisadora ressalta, no entanto, que essa relação ainda não foi comprovada. Até agora, os dados mostram uma alteração no comportamento e a análise das substâncias químicas dos besouros continua em andamento. Justamente por isso os cientistas não afirmam que o calor tenha alterado a atração dos animais. A explicação considerada mais provável é que os machos tenham encontrado maior dificuldade para reconhecer o sexo de outros besouros. 👉 Nesse sentido, Morelle pondera que o comportamento não deve ser interpretado com base em categorias usadas para seres humanos. "Eu evitaria usar o vocabulário humano. A fisiologia de um besouro é diferente demais para que essas palavras possam ser transferidas para eles”, afirma a pesquisadora. “Minha hipótese de trabalho é que isso reflita um prejuízo no reconhecimento sexual, e não uma mudança na preferência por parceiros”. Outro ponto que surpreendeu a equipe foi a frequência dessas interações mesmo fora da onda de calor simulada. A maioria das duplas observadas a 20°C apresentou pelo menos um episódio. O estudo também registrou mais interações recíprocas sob calor, quando os dois machos alternavam os papéis. O significado desse resultado ainda é incerto e não é tratado pela equipe como a principal conclusão da pesquisa. Besouro da espécie Nicrophorus vespilloides alimenta e protege as larvas sobre a carcaça enterrada de um roedor. Solène Morelle Uma das possibilidades é que o contato próximo permita que o animal inicialmente abordado também tente reconhecer quimicamente o outro. Por enquanto, porém, essa interpretação ainda é apenas uma hipótese. A próxima etapa será descobrir se o aumento dessas interações reduz o contato dos machos com as fêmeas e se isso pode afetar a reprodução. Também existe a possibilidade de que falhas na comunicação dificultem o reconhecimento de invasores. 🪲 Para esses besouros, confundir um parceiro com um rival pode ter consequências graves, já que outros indivíduos podem tentar tomar a carcaça e matar as larvas. “Com apenas esse resultado, ainda podemos somente especular sobre as consequências para a reprodução e para a saúde das populações”, diz Morelle. “Se esses custos existirem, esse pode ser um efeito das mudanças climáticas sobre a reprodução animal que ainda não havíamos considerado e que poderia afetar a capacidade de resistência das populações em um mundo mais quente". Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'