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Crianças, idosos, imunossuprimidos: o que acontece no corpo de quem nunca sai do grupo de risco

Freepik Um vírus entra pelo nariz. Uma bactéria atravessa um corte na pele. Em poucos segundos, o organismo já percebeu a invasão. É o início de uma casca...

Crianças, idosos, imunossuprimidos: o que acontece no corpo de quem nunca sai do grupo de risco
Crianças, idosos, imunossuprimidos: o que acontece no corpo de quem nunca sai do grupo de risco (Foto: Reprodução)

Freepik Um vírus entra pelo nariz. Uma bactéria atravessa um corte na pele. Em poucos segundos, o organismo já percebeu a invasão. É o início de uma cascata: células que reconhecem o invasor, outras que correm para destruí-lo ou neutralizá-lo, outras que aprendem a fabricar anticorpos específicos contra aquele inimigo. Como explica a infectologista Lilian Avilla, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, boa parte dos sintomas de uma doença não vem apenas do microrganismo invasor: vem, em parte, da própria resposta do corpo tentando combater o que ele reconhece como uma ameaça. Essa sequência se repete em qualquer pessoa, de qualquer idade. O que muda, de pessoa para pessoa, é a eficiência com que essa engrenagem é executada. Há três grupos em que esse mecanismo, por razões distintas, não opera em sua capacidade plena: crianças, idosos e imunossuprimidos. Não é que o sistema imunológico desses grupos esteja quebrado; ele funciona de um jeito diferente: incompleto, mais lento ou debilitado, dependendo do caso. É essa diferença que os torna mais vulneráveis a quase qualquer doença infecciosa, e que muda também a forma como reagem às vacinas. Agora no g1 Crianças, imunidade em aprendizado Um recém-nascido chega ao mundo com um empréstimo. Ainda na gestação, recebe anticorpos da mãe através da placenta; depois do parto, continua recebendo pelo leite materno. Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), descreve esse período inicial como uma fase em que o bebê depende inteiramente da imunidade transferida pela mãe, antes de conseguir produzir seus próprios anticorpos. É esse empréstimo que protege o bebê nos primeiros meses de vida, enquanto seu próprio sistema imunológico ainda não sabe produzir defesas. Por volta dos seis meses, o estoque emprestado começa a cair —e o corpo precisa assumir o trabalho sozinho, numa fase em que ainda não aprendeu a fazê-lo bem. Aprender é a palavra certa. O sistema imunológico de uma criança pequena se parece com alguém em um emprego novo: tem as ferramentas básicas, mas não tem repertório. Cada vírus, cada bactéria com que ela entra em contato funciona como uma aula sobre como aquele inimigo se comporta e qual estratégia de defesa funciona contra ele. bebê amamentando AdobeStock Com a repetição de exposições —sejam infecções, sejam vacinas—, o sistema acumula repertório, reconhece ameaças com mais velocidade, produz anticorpos mais específicos. Considera-se razoavelmente maduro entre os cinco e os seis anos de idade. Mas ele nunca termina: continua sendo remodelado ao longo de toda a infância e da adolescência. A fragilidade maior está concentrada nos primeiros doze meses, sobretudo nos primeiros seis. É por isso que o calendário vacinal infantil concentra tantas doses em tão pouco tempo: a vacina pentavalente, por exemplo, é aplicada aos dois, quatro e seis meses de vida, exatamente no período em que a produção própria de anticorpos ainda não é suficiente. A coqueluche ilustra bem o problema: é uma doença que pode evoluir mal em bebês pequenos, e a forma mais eficaz de protegê-los nesse início de vida é vacinar a gestante a partir da vigésima semana de gravidez. Mais um empréstimo, agora fabricado sob encomenda pelo sistema imunológico da mãe. O outro extremo da vida idosos Freepik No outro extremo da vida, a velhice, o problema não é falta de repertório: é desgaste. Chama-se imunossenescência o processo pelo qual o sistema imunológico perde eficiência com o tempo. Segundo Cunha, esse processo não começa de forma abrupta aos 60 anos: já está em curso muito antes disso, e vai ganhando peso progressivamente à medida que a idade avança. As respostas demoram mais para começar, organizam-se com mais lentidão, produzem menos anticorpos do que produziriam décadas antes. Microrganismos que um adulto jovem combateria sem maiores consequências podem, num idoso, evoluir para quadros graves: internação, cuidados intensivos, ventilação mecânica, morte. A imunossenescência raramente age sozinha. Combina-se com outros fatores que se acumulam com a idade: o estado nutricional, que tende a se deteriorar com doenças crônicas ou com o próprio envelhecimento; as comorbidades —doenças pulmonares, cardíacas, renais—, que se acumulam, muitas vezes mais de uma ao mesmo tempo, e tornam qualquer infecção respiratória um risco maior do que seria isoladamente. E um terceiro fator, menos discutido: a forma como o corpo manifesta os sintomas. Em pessoas idosas, sinais de infecção podem passar despercebidos, o que atrasa a busca por atendimento médico —e quanto mais avançado o quadro na chegada ao hospital, maior a chance de um desfecho desfavorável. Gripe, Covid-19 e pneumonia respondem por boa parte das hospitalizações e mortes em idosos porque essas três engrenagens —queda imunológica, comorbidades, atraso no diagnóstico— costumam girar juntas. Hábitos de vida interferem no ritmo desse declínio, mas não o impedem. É um processo esperado, parte do envelhecimento do corpo como um todo —não apenas do sistema imunológico. A mesma fragilidade física que limita a mobilidade de um idoso é, com frequência, a que compromete sua capacidade de se recuperar de uma infecção. Onde entram os imunossuprimidos? Freepik O terceiro grupo não tem relação direta com idade. São pessoas cujo sistema imunológico foi enfraquecido por uma doença, por um tratamento, ou pelos dois, e a lista de causas é longa e heterogênea. Pode ser alguém que recebeu um transplante de medula óssea ou de um órgão sólido, como rim ou pulmão, e que precisa tomar medicamentos para impedir que o próprio corpo rejeite o enxerto. Esses remédios, como efeito colateral inevitável, também reduzem a capacidade de reagir a vírus e bactérias. Pode ser alguém com uma doença autoimune, como o lúpus, em que o sistema de defesa ataca o próprio organismo e precisa ser contido com imunossupressores. Pode ser alguém com síndrome nefrótica, em que o comprometimento renal exige, da mesma forma, reduzir a resposta imune para tratar a doença de base. Há também quem nasça, e não adquira, essa fragilidade: os chamados erros inatos da imunidade, em que a pessoa já vem ao mundo sem produzir um determinado tipo de célula de defesa. Nos casos mais severos —bebês que não produzem nenhuma célula de defesa, nem contra vírus nem contra bactérias—, o tratamento costuma exigir um transplante de medula óssea ainda na primeira infância. E há o HIV, que mostra como uma mesma doença pode gerar graus muito diferentes de imunossupressão: em tratamento antirretroviral, uma pessoa vivendo com HIV pode manter a contagem de células de defesa praticamente normal; sem o mesmo controle, pode chegar a um grau grave de imunossupressão. Nem toda imunossupressão tem a mesma origem, mesmo dentro de uma única doença. Ana Paula Burian, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Espírito Santo e coordenadora do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) de Vitória, observa que, em alguns tipos de câncer, por exemplo, queda da imunidade não vem do tratamento, mas da própria doença. Numa leucemia, é o próprio câncer —instalado exatamente no tecido que produz as células de defesa— que já reduz a imunidade, antes mesmo de qualquer sessão de quimioterapia. Já no câncer de mama, o sistema imunológico costuma estar intacto no início: é o tratamento necessário para combater o tumor que, como efeito colateral, compromete temporariamente as defesas do corpo inteiro. Dois caminhos diferentes (um pela doença, outro pelo tratamento) chegando ao mesmo destino: um organismo com menos armas para reconhecer e neutralizar uma ameaça externa. Por que imunidade interfere até em vacinas? Essa fragilidade —seja qual for sua origem— também muda a forma como esse grupo reage a uma vacina. Isso porque uma vacina não age por um caminho separado: ela aciona a mesma engrenagem que entra em ação contra uma infecção real, só que de forma controlada, para que o corpo aprenda a reconhecer um inimigo antes de encontrá-lo de verdade. Se essa engrenagem já está com peças faltando, ela responde de forma mais fraca também à vacina — e o tipo de vacina passa a importar tanto quanto a própria decisão de vacinar. Já as vacinas de vírus ou bactérias vivos, mesmo atenuados, podem ser perigosas para quem tem um grau mais alto de imunossupressão: o próprio agente da vacina, enfraquecido mas vivo, pode encontrar um sistema de defesa incapaz de controlá-lo, e provocar a doença que deveria prevenir. Por isso, cada caso pede avaliação individual —idade, profissão, exposição, comorbidades associadas— antes de decidir qual vacina aplicar, em que dose e com que cuidado. Mesmo quando a resposta à vacina é parcial, ela continua valendo a pena. Para quem tem pouca capacidade de se defender de uma infecção, qualquer grau adicional de proteção pesa a favor —e o risco desse grupo de evoluir para quadros graves, como internação e óbito, torna qualquer ferramenta de prevenção relevante. Existe uma camada de proteção que não depende diretamente da pessoa imunossuprimida, mas de quem está à sua volta. Ana Paula Burian afirma que o ideal é vacinar todas as pessoas próximas a um paciente imunocomprometido, porque isso reduz a chance de exposição justamente para quem teria mais dificuldade de reagir a uma infecção. A mesma lógica vale, em outra escala, para os outros dois grupos: um recém-nascido depende da vacinação da gestante; um idoso depende de um ambiente em que doenças transmissíveis circulem menos. Proteger crianças, idosos e imunossuprimidos não é tarefa exclusiva de cada um deles. É, em parte, tarefa de quem está por perto —com o sistema imunológico funcionando em sua capacidade plena.