'Fascinação pela violência': União Europeia alerta para ameaças terroristas com jovens buscando conteúdos violentos na internet
Explosão do segundo avião a atingir o World Trade Center é vista de longe em Nova York durante o ataque terrorista em 11 de setembro de 2001 Spencer Platt/Ge...
Explosão do segundo avião a atingir o World Trade Center é vista de longe em Nova York durante o ataque terrorista em 11 de setembro de 2001 Spencer Platt/Getty Images via AFP/Arquivo Um quarto de século após os ataques da Al-Qaeda contra os Estados Unidos, grupos jihadistas continuam representando uma grande ameaça à segurança na Europa. Mas uma nova ameaça surgiu, impulsionada principalmente por jovens na internet, e preocupa as autoridades. O tamanho exato da rede por trás do que vem sendo chamado de extremismo violento niilista ainda não é conhecido. Mas investigadores policiais de nove países europeus encontraram cerca de 4.340 endereços de sites ligados ao “The COM”, como ficou conhecida a comunidade online, durante uma operação para interromper suas atividades em junho e julho. “É violência pela violência”, afirmou à Associated Press o coordenador de Contraterrorismo da União Europeia, Bartjan Wegter, em entrevista antes do 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington. No ano passado, foram registrados 45 ataques terroristas em dez dos 27 países da União Europeia. Nenhum deles, porém, foi um grande atentado com muitas vítimas. Cerca de metade foi impedida ou fracassou, mas seis pessoas morreram. LEIA TAMBÉM: Crimes online, falha em moderação e falta de acordo: por que o Discord foi processado em R$ 500 milhões pelo governo Governo processa Discord e pede R$ 500 milhões Ao todo, 486 pessoas suspeitas de ligação com o terrorismo foram presas em 21 países-membros, segundo a agência policial da União Europeia, a Europol. Grupos jihadistas — muitas vezes orientados ou inspirados por redes de fora da Europa — estiveram por trás de 24 dos ataques e responderam por mais de 70% das prisões. 🔍 Ser um jihadista significa aderir a uma interpretação radical e violenta do conceito islâmico de jihad (que, em árabe, significa “esforço” ou “luta”), defendendo o uso da força armada para impor a lei islâmica (Sharia) e criar um Estado governado exclusivamente por essa lei. Entre todos os detidos, cerca de um terço tinha menos de 18 anos, a maioria meninos. A Europol não mantém estatísticas sobre extremismo violento niilista porque as definições variam e os atos podem ser enquadrados tanto como crimes comuns quanto como terrorismo. Na Finlândia, porém, um adolescente de 16 anos esfaqueou três colegas estudantes do sexo feminino em 2025. Segundo as autoridades, ele compartilhou um “manifesto” em grupos do WhatsApp, gravou o ataque no Snapchat e pediu nas redes sociais que alguém salvasse e entregasse o vídeo a ele depois que fosse libertado. No “manifesto”, ele afirmou que queria fazer algo “significativo” e “empolgante”. Segundo um documento da União Europeia sobre a ameaça emergente de violência extremista niilista, não houve motivação política apresentada para o ataque. 🔍 O niilismo, na filosofia, é uma visão de mundo segundo a qual a vida não tem um sentido ou propósito intrínseco e não existem valores ou verdades universais. A ideia pode estar associada ao questionamento de conceitos tradicionais de moral, religião e instituições, mas não significa, por si só, defesa da violência. O coordenador antiterrorismo da União Europeia, Bartjan Wegter. AP/Virginia Mayo Violência como forma de entretenimento “É muito uma fascinação pela violência. É a violência como forma de se afirmar, como forma de conquistar status nessas comunidades online”, afirmou Wegter à AP. “Não há uma ligação direta com uma ideologia.” Na Itália, um adolescente de 15 anos planejou um assassinato no ano passado para ganhar notoriedade na internet, segundo as autoridades locais. Ele mantinha no celular imagens e vídeos de agressões, assassinatos, ataques a escolas e pornografia infantil. Wegter afirmou que esse tipo de incidente, que aumentou nos últimos dois ou três anos, não é isolado, mas organizado por redes online que são “frequentemente conduzidas por jovens, para jovens, muitas vezes envolvendo meninos”. Segundo ele, essas redes “levam à violência fora da internet. Vimos esfaqueamentos, um jovem esfaqueando uma pessoa idosa sem absolutamente nenhuma razão”. Esses ataques são difíceis de prevenir ou rastrear. Segundo Wegter, eles frequentemente envolvem “jovens que normalmente não terão antecedentes criminais, que talvez não deixem rastros além da internet, mas que muitas vezes estão atrás de paredes criptografadas e em comunidades”. Conspirações na internet para cometer crimes no mundo real Um dos grupos que estão no radar das autoridades é o 764, fundado pelo americano Bradley Cadenhead, que abandonou o ensino médio. Ele cumpre uma pena de 80 anos de prisão por crimes relacionados a pornografia infantil e delitos sexuais, mas o grupo continua funcionando. Na Alemanha, um homem de 20 anos considerado um dos principais integrantes do 764 enfrentou, no ano passado, 123 acusações por atos de “um nível inimaginável de brutalidade e desumanidade”, incluindo assassinato, estupro e abuso sexual de crianças, segundo o documento da União Europeia. LEIA TAMBÉM: 'Panelas' no Discord escondem 'as mais perversas formas de crime' contra crianças, diz policial infiltrada Há 25 anos, extremistas, em sua maioria da Arábia Saudita, entraram nos Estados Unidos e receberam treinamento para se tornar pilotos capazes de realizar ataques mortais. Hoje, segundo Wegter, a ameaça terrorista que a Europa enfrenta é organizada principalmente pela internet. “O ambiente online, apesar de todas as coisas boas que traz, ainda é permissivo demais”, afirmou. Ele descreveu a internet como “uma placa de Petri para a conexão entre diferentes ameaças”. Privacidade e segurança com avanço da inteligência artificial Defensores da privacidade afirmam que as pessoas têm o direito fundamental de se comunicar sem uma intrusão injustificada. Eles acusam autoridades e algumas empresas de enfraquecer as proteções por meio de softwares espiões e outros métodos. Wegter, porém, afirmou que “nossas forças de segurança precisam estar equipadas com os instrumentos e ferramentas para lidar com a ameaça como ela existe hoje”. Ele observou que 85% das investigações ocorrem no ambiente digital. “Isso significa que precisamos nos adaptar a isso”, disse. Para o diplomata holandês, isso significa conversar mais com autoridades e organizações de outros países, especialmente aqueles usados por esses grupos como uma espécie de base de apoio. “Porque o que acontece fora das nossas fronteiras afeta nossa segurança”, afirmou, incluindo o conteúdo que é amplificado na internet. A Europol afirmou que criminosos estão explorando imagens e áudios para criar e editar propaganda, inclusive por meio de deepfakes, memes e GIFs. Bots equipados com inteligência artificial também foram usados para ampliar o recrutamento e promover ideologias terroristas, enquanto aplicativos baseados em IA foram utilizados para pesquisas destinadas a preparar ataques. “O tipo de conteúdo violento, o conteúdo que incita à violência, propaganda, manuais, táticas, tudo o que está disponível é muito amplificado pela inteligência artificial”, afirmou Wegter.