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Guerra, tarifaço e preferência da China pelo Brasil agravam crise de produtores de soja dos EUA

Fazenda de produção de soja no Nebraska, nos Estados Unidos AP Photo/Charlie Riedel O produtor de soja Doug Bartek, de 60 anos, se diz ansioso para o início ...

Guerra, tarifaço e preferência da China pelo Brasil agravam crise de produtores de soja dos EUA
Guerra, tarifaço e preferência da China pelo Brasil agravam crise de produtores de soja dos EUA (Foto: Reprodução)

Fazenda de produção de soja no Nebraska, nos Estados Unidos AP Photo/Charlie Riedel O produtor de soja Doug Bartek, de 60 anos, se diz ansioso para o início da colheita da primavera, listando os inúmeros problemas que afetam o sustento de sua família em sua fazenda de 2.000 acres próxima a Wahoo, Nebraska, nos Estados Unidos. Segundo Bartek, que também preside a Associação de Soja de Nebraska, os custos elevados de combustível, máquinas e fertilizantes têm pesado no orçamento, situação agravada pelo conflito no Irã. Além disso, as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, a sensação de que os fornecedores cobram valores excessivos e o preço baixo da soja, resultado da grande oferta mundial, tornam o cenário ainda mais difícil. “Nossas maiores dificuldades são os insumos, seja fertilizante, semente, produto químico, peças”, diz Bartek. “Todos eles tiveram um aumento drástico, e eu sinto que o agricultor está encurralado.” 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 Preocupações em série A soja, utilizada na alimentação animal, em alimentos e na produção de biocombustíveis, está entre os principais produtos agrícolas exportados pelos Estados Unidos desde a década de 1990, quando a produção aumentou devido à demanda internacional, principalmente da China. No entanto, os produtores de soja dos Estados Unidos, que também plantam milho, já enfrentavam dificuldades financeiras há vários anos, mesmo antes do conflito no Irã. O valor da soja tem permanecido baixo nos últimos anos, principalmente devido ao excesso de oferta no mercado – impulsionado em parte pelo Brasil, que superou os Estados Unidos como maior produtor mundial de soja há alguns anos. “Se olharmos para a produção global de soja nos últimos anos, ela continua batendo recorde após recorde”, afirma Chad Hart, economista agrícola da Universidade Estadual de Iowa. “Há grandes estoques globais, e isso baixou os preços.” Por isso, muitos agricultores do Meio-Oeste dos Estados Unidos compartilham as mesmas preocupações de Doug Bartek. Enquanto o preço da soja se mantém baixo, os gastos com máquinas e produção aumentaram. As tarifas impostas pelo governo Trump no ano passado e a guerra comercial com a China só agravaram a situação, segundo os produtores. Depois, o conflito no Irã dificultou o transporte pelo Estreito de Ormuz, reduzindo o fornecimento mundial de fertilizantes e fazendo os preços subirem ainda mais. “Muitos produtores estão bem nervosos entrando neste ano”, diz Justin Sherlock, agricultor e presidente da Associação de Produtores de Soja da Dakota do Norte. “Parece que teremos mais um ano de retornos negativos.” O aumento do preço dos terrenos no Meio-Oeste dos Estados Unidos também preocupa os agricultores, de acordo com especialistas. Segundo Joana Colussi, professora assistente de pesquisa no departamento de economia agrícola da Universidade Purdue, a maioria dos produtores da região depende de terras alugadas para cultivar parte de sua produção. Doug Bartek, que aluga três quartos da área em que produz, afirma que os donos das terras estão elevando os valores, o que aumenta ainda mais a pressão financeira. “Há muitos proprietários ausentes que não têm absolutamente nenhuma ideia do que acontece na fazenda”, diz ele. “Tudo o que sabem é que seus impostos aumentaram, e eles têm que compensar a diferença de alguma forma.” Doug Bartek, produtor de soja do Nebraska, nos Estados Unidos AP Photo/Charlie Riedel China troca soja americana pela brasileira Os desafios do mercado não são o único obstáculo para os agricultores. As tarifas impostas pelo presidente Donald Trump em abril de 2025 intensificaram a disputa comercial com a China, que era a principal compradora da soja dos Estados Unidos. A China respondeu com tarifas em retaliação e praticamente deixou de comprar soja dos Estados Unidos, o que fez o preço cair ainda mais e eliminou um importante destino de exportação para os produtores do Meio-Oeste. A guerra comercial empurrou a China para exportadores concorrentes da soja americana, como o Brasil. “Quando a China impôs tarifas contra os EUA, eles passaram a comprar do Brasil ou da Argentina, principalmente do Brasil”, afirma Joseph Glauber, ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA. “Não somos mais tão dominantes no mundo como éramos em termos de mercado global de exportação de soja.” EUA e China finalmente fecharam um acordo no fim de 2025. A China prometeu comprar 12 milhões de toneladas de soja até janeiro e, nos três anos seguintes, pelo menos 25 milhões de toneladas por ano. Em dezembro, o governo Trump também anunciou um pacote de ajuda temporária de 12 bilhões de dólares para apoiar os produtores prejudicados pela disputa comercial. Mas o estrago já estava feito, dizem especialistas e agricultores. Apesar das novas compras da China e do auxílio do governo, isso não foi suficiente para compensar as perdas. Mesmo com o apoio federal, os agricultores ainda tiveram prejuízo de quase 75 dólares por acre de soja colhido na safra de 2025, segundo a Associação Americana de Soja. “Quando a China decidiu parar de comprar, não conseguimos encontrar outros mercados suficientes para substituir essas vendas. Ainda sentimos os impactos hoje”, diz Chad Hart, acrescentando que as exportações da soja americana estão entre 15% e 20% abaixo do esperado para o momento. Guerra elevou custos de combustível e fertilizantes Depois do ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, o tráfego pelo Estreito de Ormuz foi interrompido, o que fez o preço do petróleo subir muito e quase parou a exportação de fertilizantes nitrogenados produzidos no Golfo Pérsico. O valor da ureia, o fertilizante nitrogenado mais usado, aumentou bastante. Aproximadamente metade do fornecimento mundial desse produto vem do Oriente Médio. A soja não precisa desse tipo de fertilizante, mas ele é essencial para o milho, que a maioria desses produtores também planta. A guerra também fez os preços da gasolina e do diesel dispararem, causando mais dores de cabeça. Segundo Seth Goldstein, analista da empresa de pesquisa Morningstar, instalações importantes no Oriente Médio para exportação de produtos químicos, petróleo e outros itens foram danificadas ou destruídas, e será necessário tempo para que as cadeias de suprimentos se recuperem. “Locais como plantas de gás natural liquefeito foram atingidos”, diz Goldstein. “Também há uma grande escassez de produtos químicos básicos, insumos para produtos químicos agrícolas.” Futuro em xeque As dificuldades financeiras dos produtores aparecem em alguns indicadores. Em uma pesquisa feita com 400 agricultores pelo Centro Purdue para Agricultura Comercial no fim de março, quase metade afirmou que sua situação financeira está pior do que há um ano. O analista Seth Goldstein afirma que os custos elevados e a queda nas receitas dos produtores ajudaram a aumentar o número de falências entre 2024 e 2025. Segundo ele, se as despesas continuarem subindo mais rápido do que os preços das colheitas, isso “pressionaria novamente os agricultores e levaria provavelmente a mais falências”. Depois de 43 anos trabalhando no campo, Doug Bartek conta que o cheiro de terra fresca ainda o motiva para o plantio de primavera. No entanto, ele também ouviu relatos de suicídios de produtores, falências e “vendas de aposentadoria”, quando agricultores são obrigados a leiloar suas propriedades devido a dificuldades financeiras. Bartek compara os produtores a apostadores que investem “milhões de dólares na terra” esperando retorno. Às vezes, ele questiona sua escolha de seguir na agricultura e se preocupa com o filho, que adquiriu uma fazenda há alguns anos. Ele se pergunta: “Será que fiz a coisa certa ao ajudá-lo a entrar na agricultura?”