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Incêndios florestais na América do Norte estão queimando por mais horas a cada dia

Bombeiro do Serviço Florestal dos EUA tenta retardar a propagação do Fogo Dixie, um incêndio florestal perto da cidade de Greenville, Califórnia, EUA REUTE...

Incêndios florestais na América do Norte estão queimando por mais horas a cada dia
Incêndios florestais na América do Norte estão queimando por mais horas a cada dia (Foto: Reprodução)

Bombeiro do Serviço Florestal dos EUA tenta retardar a propagação do Fogo Dixie, um incêndio florestal perto da cidade de Greenville, Califórnia, EUA REUTERS/Fred Greaves Há décadas, a noite era um momento previsível de alívio nos combates a incêndios florestais nos Estados Unidos e no Canadá: com a queda da temperatura e o aumento da umidade, as chamas perdiam força, e os bombeiros aproveitavam para reagrupar equipes, planejar ações e avançar no controle do fogo. Esse padrão está se tornando cada vez menos confiável. Uma pesquisa publicada na última semana na revista "Science Advances" mostra que as mudanças climáticas estão enfraquecendo o ciclo natural de variação entre o dia e a noite — e que, por causa disso, os incêndios florestais na América do Norte estão ativos por mais horas a cada dia, inclusive durante períodos que antes eram de relativa calmaria. O estudo analisou dados horários de satélites para cerca de 9 mil incêndios com mais de 200 hectares registrados nos EUA e no Canadá entre 2017 e 2023. Os resultados mostram que um terço dos dias de queima ativa nas florestas boreais canadenses e nas montanhas do oeste do continente — regiões como Colúmbia Britânica, Alberta, Califórnia, Oregon e Colorado — superou 12 horas de atividade. Em 14% dos dias com atividade noturna, o pico de intensidade do fogo ocorreu justamente à noite, e não durante o dia, como seria esperado pelo padrão histórico. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Os pesquisadores também desenvolveram um modelo de aprendizado de máquina, treinado com os dados de 2017 a 2023, para estimar como as horas de queima potencial evoluíram desde 1975. A conclusão: houve um aumento de 36% nas horas anuais de queima potencial nos EUA e no Canadá ao longo de 50 anos. No oeste do continente, e especialmente na primavera e no outono, o crescimento foi ainda mais pronunciado, chegando a 48% a 57%. "O que estamos vendo é que não apenas o período de calmaria noturna está se tornando menos confiável, mas também que as horas que já eram ativas, especialmente durante o dia, podem se tornar ainda mais favoráveis à queima", explicou Kaiwei Luo, pesquisador da Universidade de Alberta, no Canadá, e autor principal do estudo, em entrevista ao g1. "Em outras palavras, o ciclo diurno está sendo enfraquecido como uma restrição ao comportamento do fogo." Segundo Luo, esse enfraquecimento provavelmente se manifesta por meio de dois mecanismos: a umidade do ar demora mais para se recuperar à noite, e o aquecimento durante o dia tornou-se assimétrico — o que permite que o fogo mantenha energia e potencial de propagação em períodos que historicamente eram de menor atividade. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Dias extremos ficaram muito mais comuns Além do aumento médio nas horas de queima, o estudo identificou um salto expressivo nos chamados dias extremos — aqueles em que as condições climáticas favorecem 12 ou mais horas de queima potencial. Nas florestas boreais do oeste do Canadá, por exemplo, os dias com 12 ou mais horas de queima potencial cresceram 81% entre 1975 e 2024. Já os dias com queima potencial por 24 horas contínuas — o equivalente a um incêndio que não arrefece nem de dia nem de noite — aumentaram 233% no mesmo período. Nas montanhas temperadas do oeste dos EUA e do Canadá, os aumentos foram de 86% e 225%, respectivamente. As regiões com tendências significativas de mudança ganharam, em média, 26 dias a mais por ano com potencial de queima ativa, além de 1,2 hora extra de queima a cada dia ativo. Mapa mostra onde as horas de queima potencial aumentaram nos EUA e no Canadá entre 1975 e 2024. Regiões em vermelho, no oeste do continente, registraram os maiores crescimentos. Luo et al., Sci. Adv. 12, eaed0725 No Arizona e no Novo México, estados do sudoeste americano, cerca de 90% das áreas combustíveis registraram ganhos de 13 a 14 horas de queima potencial por ano — com algumas células chegando a quase 40 horas a mais por ano. Os autores, contudo, foram cuidadosos ao delimitar o que o estudo pode e não pode afirmar. As tendências identificadas foram calculadas a partir de dados climáticos e meteorológicos — portanto, elas refletem especificamente a componente climática da mudança. "As mudanças climáticas são o motor da tendência meteorológica que analisamos, enquanto o manejo do território e as condições de combustível moldam com que força essa tendência se expressa em incêndios reais", disse Luo. Fatores como o acúmulo de material combustível por décadas de supressão do fogo, secas prolongadas e a expansão de áreas urbanas próximas a regiões florestais podem amplificar ou atenuar o impacto nas regiões afetadas — mas não são o motor central das tendências identificadas. Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, o cenário deve piorar. "De maneira geral, isso significaria mais condições favoráveis à queima noturna, janelas de queima mais longas e uma probabilidade maior de comportamentos extremos e difíceis de controlar", afirmou Luo. Fumaça gerada por incêndios florestais no Canadá são vistos do alto no noroeste do Canadá em 17 de agosto de 2023 Jeff McIntosh/The Canadian Press via AP LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil