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Por que reabrir do Estreito de Ormuz é mais complexo do que liberar rodovia

Navios são vistos no Estreito de Ormuz, em Musandam, em Omã, no dia 16 de junho de 2026 Reuters Apesar da expectativa positiva dos mercados financeiros, a pre...


Por que reabrir do Estreito de Ormuz é mais complexo do que liberar rodovia
Por que reabrir do Estreito de Ormuz é mais complexo do que liberar rodovia (Foto: Reprodução)

Navios são vistos no Estreito de Ormuz, em Musandam, em Omã, no dia 16 de junho de 2026 Reuters Apesar da expectativa positiva dos mercados financeiros, a presença de minas navais e a própria fragilidade do acordo entre EUA e Irã indicam que situação deve demorar para retornar ao normal. Estados Unidos e Irã anunciaram neste domingo (14) um acordo preliminar para encerrar a guerra entre os dois países. O primeiro ponto destacado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 "Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!", escreveu o presidente. Os mercados financeiros globais reagiram com entusiasmo ao anúncio. Mas reabrir uma via marítima como Estreito de Ormuz não é a mesma coisa que reabrir uma rodovia após um acidente. Restaurar o tráfego de petróleo, gás e contêineres no nível pré-guerra por esse importante gargalo logístico enfrenta obstáculos significativos – o maior deles a fragilidade do próprio acordo, cujo texto não foi divulgado. Trump diz que acordo entre EUA e Irã entra em segunda fase A agência grega de gestão de riscos marítimos Marisks alertou, nesta segunda-feira, que o acordo deve ser visto como "o início de um processo de desescalada, e não como a restauração imediata das condições normais de comércio". "Operacionalmente, o setor não está se apressando para retomar as atividades", afirmou o editor-chefe do site especializado em transporte marítimo Lloyd's List, Richard Meade, observando que muitos alertam que a remoção de minas e o retorno ao uso das rotas de trânsito reconhecidas internacionalmente são pré-requisitos para uma navegação segura. Leia também: Trump diz que Estreito de Ormuz será totalmente reaberto na sexta-feira Único brasileiro inscrito em audiência sobre tarifaço defende PIX e cobra debate técnico Remoção das minas navais Se as agressões tanto dos EUA quanto do Irã realmente pararem, o Irã terá primeiramente de localizar e remover as minas navais que instalou durante o conflito para tornar o Estreito de Ormuz novamente transitável. A maioria delas pode ser localizada rapidamente com o uso de navios varredores de minas convencionais e drones submarinos de última geração. No entanto, algumas podem ter se deslocado ou ser difíceis de encontrar, segundo especialistas marítimos. A operação de localização e remoção poderia levar de 40 a 50 dias – até muitas empresas de seguros, de transporte marítimo ou petrolíferas se sentirem seguras o suficiente para navegar pela região, de acordo com avaliações de especialistas ocidentais da área de segurança marítima ouvidos pela agência de notícias Reuters. Já a chefe de análises de energia para o Oriente Médio e Opep+ na Kpler, Amena Bakr, ouvida pela AP, estimou que a remoção de minas levaria seis meses. A Kpler é uma empresa de dados e análises especializada em logística marítima. Depois disso, observadores independentes precisarão verificar se a via marítima está de fato segura para a navegação. O ministro alemão do Exterior, Johann Wadephul, afirmou que a Alemanha vai considerar participar de operações de remoção de minas no Estreito de Ormuz apenas quando ficar claro que os combates cessaram e que tanto os Estados Unidos quanto o Irã apoiam essa missão. Alemanha, França, Reino Unido e Itália já haviam manifestado disposição para apoiar a retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz, inclusive por meio de uma missão independente e de caráter estritamente defensivo, voltada para garantir a segurança de navios comerciais e realizar a remoção de minas. Seguro contra riscos de guerra Mesmo após a remoção das minas, as empresas de navegação terão que arcar com custos mais altos do seguro contra riscos de guerra para transitar pelo Estreito de Ormuz até que a confiança seja restaurada. Atualmente, os valores permanecem extremamente altos, entre 1% e 4% do valor da embarcação por travessia, em comparação com taxas inferiores a 0,1% antes da guerra, segundo o jornal The New York Times. Para um petroleiro típico de 200 milhões de dólares, isso significa custos adicionais entre 2 milhões e 8 milhões de dólares por travessia, contra menos de 200 mil dólares antes do conflito. O Lloyd's List citou nesta segunda-feira um analista de riscos de seguros de Singapura, não identificado, que descreveu os valores como "rápidos para subir e lentos para cair". O chefe global de pesquisa em transporte marítimo da corretora de mercadorias Oil Brokerage Ltd, Anoop Singh, alertou que os proprietários de navios avaliarão os prós e contras com base em sua própria tolerância ao risco. "Japoneses, coreanos e chineses são menos propensos a assumir riscos elevados, enquanto os gregos têm um apetite diferente. Portanto, podemos ver alguns agentes se preparando para avançar, mas, de modo geral, o restante do mercado ainda busca mais detalhes e garantias antes de prosseguir", disse Singh à agência de notícias Bloomberg. Quando os navios poderão se mover? Mesmo que o estreito esteja totalmente aberto, levará tempo para que os navios-tanque entrem, carreguem e façam a viagem até os países asiáticos, que são os principais clientes do petróleo proveniente de Arábia Saudita, Iraque, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Uma viagem de ida e volta ao Japão pode levar de 45 a 50 dias. Assim que corredores seguros forem estabelecidos no Estreito de Ormuz, centenas de embarcações comerciais e suas tripulações, retidas por meses no Golfo Pérsico, poderão começar a se mover. A Bloomberg, que citou a Kpler, noticiou que 300 navios totalmente carregados estão parados no Golfo, enquanto outros 250 estão vazios, aguardando carregamento assim que o estreito for reaberto. Nas proximidades, no Golfo de Omã, cerca de 300 petroleiros vazios aguardam autorização para entrar no Golfo. Reunir a tripulação para essas embarcações pode ser outro obstáculo. Estima-se que cerca de 20 mil marinheiros permaneçam a bordo de navios retidos, segundo a Organização Marítima Internacional. Essa agência da ONU também confirmou que 14 tripulantes foram mortos em ataques, cerca de metade deles da Índia, a terceira maior origem dos marinheiros, depois das Filipinas e da China. Diante da crescente relutância das tripulações em aceitar deslocamentos para a região do Golfo, a Diretoria Geral de Navegação da Índia ordenou no domingo que agências de emprego restrinjam esses envios para áreas de conflito. Instalações energéticas danificadas Com o anúncio do acordo, os países árabes do Golfo podem agora começar a aumentar a produção de petróleo e gás. Mas esse pode ser um processo lento, pois exige inspeções de segurança nas instalações energéticas, reparos na infraestrutura danificada e o retorno gradual de trabalhadores e equipes de manutenção. Alguns produtores no Oriente Médio interromperam a extração de petróleo quando ficaram sem espaço de armazenamento. Esses países não retomarão as atividades até terem certeza de que o estreito permanecerá aberto de forma duradoura e de que um cessar-fogo durará mais de 30 ou 60 dias, afirmou o pesquisador Daniel Sternoff, da Universidade de Columbia. Uma retomada completa dependerá da restauração dos cronogramas de envio, da garantia de um número suficiente de petroleiros e de convencer compradores internacionais de que o fornecimento de energia voltou a ser confiável. O economista-chefe do grupo Capital Economics, Neil Shearing, projetou nesta segunda-feira que levará até o fim de setembro para que cerca de 80% dos fluxos de energia pelo Estreito de Hormuz sejam retomados. Shearing alertou que os fluxos de gás natural levarão mais tempo para se recuperar e mencionou danos no terminal de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Catar, onde ataques eliminaram cerca de 17% da capacidade de exportação do país, provavelmente por vários anos. Cobrança de taxas pelo Irã Não está claro se os EUA e o Irã chegaram a um acordo sobre o que significa "aberto" no caso do Estreito de Ormuz. O Irã exigiu o direito de cobrar taxas de navios que utilizam o estreito e, em alguns casos, já cobrou para permitir a saída das embarcações. Trump afirmou em sua rede social, a Truth Social, que o acordo envolvia uma "abertura sem cobrança de pedágio", mas não houve confirmação disso por parte do Irã. Enquanto os EUA insistem que o Estreito de Ormuz fique permanentemente livre de tarifas, as autoridades iranianas falam em "taxas de serviço" e em manter o controle da via marítima, junto com Omã. O pagamento de pedágio representaria um dilema para os armadores, uma vez que os EUA e a União Europeia (UE) classificam o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica como organização terrorista, e o Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções à entidade, que o Irã anunciou como responsável pela cobrança. A menos que essas sanções sejam alteradas, efetuar o pagamento expõe as empresas de transporte marítimo e os bancos a penalidades. Além disso, especialistas jurídicos afirmam que permitir que o Irã controle a passagem violaria o direito internacional sobre a liberdade de navegação, estabelecido na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a qual exige que os países permitam a passagem pacífica por suas águas territoriais. As águas do estreito são compartilhadas pelo Irã, ao norte, e por Omã, ao sul. Acordo frágil O maior risco para a reabertura do Estreito de Ormuz, porém, é o próprio acordo entre EUA e Irã, já que ele é apenas um esboço para negociações que buscam um fim definitivo do conflito. Além da cobrança de pedágio, há questões ainda mais amplas não resolvidas, como as ambições nucleares do Irã, o alívio de sanções econômicas e o apoio de Teerã a grupos como o Hezbollah e os houthis, o que indica que há um risco real de que o conflito recomece. Fortalecido por sua vantagem estratégica sobre o Estreito de Ormuz e por ter resistido à maior potência militar mundial, o Irã pode continuar testando limites. Já o governo de Israel ressaltou que não está vinculado ao acordo, apesar de o Irã ter afirmado que ele abrange também o conflito no Líbano, o que é mais um ponto a colocar em risco o frágil acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã – e o retorno à normalidade em Ormuz.