Universitária do Rio cria jogo de cartas para combater o racismo e ampliar acesso à cultura
Universitária carioca desenvolve jogo de cartas para discutir racismo Uma universitária do Rio de Janeiro desenvolveu um jogo de cartas que propõe discutir o...
Universitária carioca desenvolve jogo de cartas para discutir racismo Uma universitária do Rio de Janeiro desenvolveu um jogo de cartas que propõe discutir o racismo e ampliar o acesso à cultura por meio da representatividade de pessoas negras. Criado por Thais Dias Xavier, participante do projeto Jovens Cientistas Cariocas, o jogo foi desenvolvido na Nave do Conhecimento, em Madureira, na Zona Norte do Rio, e utiliza personagens reais como forma de estimular o debate e a identificação dos jogadores. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Segundo Thais, a ideia surgiu a partir de um incômodo sobre o distanciamento de parte da população em relação a espaços culturais. "Eu já tinha um incomodo que era de as pessoas terem medo de chegar nesses locais de cultura, de chegar, as vezes por questões geográficas, por questões de conhecimento, de acesso. Eu tive bons professores que de alguma forma desmistificaram isso. E eu percebi que a gente precisava criar formas, pesquisas, metodologias e essa conversa para que as pessoas pudessem se sentir parte", disse ela. Thais mostra carta de Rene Silva, um dos personagens de seu jogo Reprodução/TV Globo Como funciona o jogo O jogo é baseado em cartas com personagens negros — reais e reconhecidos em diferentes áreas — que funcionam como “heróis” dentro da dinâmica proposta. Cada carta traz uma história resumida e uma pontuação. Um exemplo é a carta de Miguel Carmo, que apresenta sua trajetória e valor dentro do jogo. Além dos personagens, há também cartas de “vilões”, que representam situações e práticas racistas. Uma delas traz a descrição: “Conhecido por: Opressão estética”, retratando situações em que pessoas negras são pressionadas a esconder características como cabelo ou traços. A lógica do jogo é coletiva: os participantes precisam escolher, entre suas cartas, quais personagens podem enfrentar e “combater” aquele tipo de situação. "A pesquisa em um primeiro momento vai debater com a comunidade acadêmica sobre como a gente está lidando, mas a parte principal é quando chega o jogo, que é essa metodologia, de olhar para as pessoas pretas e terem elas como referência", explicou Thais. Representatividade como ferramenta Entre os personagens presentes nas cartas estão figuras conhecidas e referências em diferentes áreas. "Eu pego aqui as minhas cartas, por exemplo 'Andrea Hygino', ela é uma professora de artes da UERJ, uma mulher preta que fala sobre educação. Aqui a gente tem o 'Renê Silva', o jornalista do Voz das Comunidades, que todo mundo conhece. A 'Leila Gonzales', professora da UERJ, mulher negra que na época já usava cabelo black, quando ainda era uma questão", disse Thais. Outro exemplo presente no jogo é a judoca Bia Souza, medalhista olímpica. "Outro exemplo de carta de herói é a Bia Souza, judoca campeã, medalhista olímpica, e a carta dela fala sobre a contribuição dela no esporte", mostrou a apresentadora Ana Paula Santos. Jogo adaptável e coletivo O jogo pode ser adaptado para diferentes contextos e número de participantes, o que facilita sua aplicação em escolas, projetos sociais e espaços culturais. "Essa é a parte interessante do jogo que a gente pode adaptar para cada local, quantidade de pessoas. Então podemos jogar em duas pessoas ou em dez pessoas, que é essa a ideia que tenha bastante pessoas para a gente conversar", explicou. Entenda a diferença entre racismo e injúria racial Influência e trajetória pessoal A proposta do jogo também dialoga com a própria trajetória de Thais, que destaca a importância de referências próximas para ampliar horizontes. "Eu acho importante quando a gente já tem uma pessoa que já é próxima ou que a gente conhece, que acompanha nas redes sociais. Ai aquilo fica um pouco mais simples", disse Thais. "Eu fui influenciada por pessoas na minha volta, que me ensinaram que eu podia terminar a escola e a faculdade, a fazer outras coisas. Então acho que é essa influência que está nas cartas e é isso que importante", afirmou. Thais também relembrou o papel dos projetos sociais na sua formação. "Meu primeiro projeto social eu tinha 10 anos e é quando eu vejo a minha irmã, que é cinco anos mais velha do que eu, descobrindo ali que ela poderia fazer faculdade, que não era tão difícil quanto contavam pra gente. Então eu mais nova tenho essa influência: 'Ah então eu também posso'", disse ela. Cultura como ferramenta de transformação Para a pesquisadora, o jogo é mais do que uma atividade lúdica, é uma ferramenta de transformação social. "Eu fiz uma primeira graduação em Direito, em que eu não me via. Eu troquei e agora estou em História da Arte. E ai a gente vai tendo esse contato pelas redes sociais, ongs e outras pessoas. E por isso que eu acho que o jogo, quando estiver nesses locais de cultura, tem esse outro olhar", afirmou. Ela defende que o acesso à cultura pode ajudar a romper barreiras sociais e ampliar oportunidades. "A arte pode libertar a gente. Quando a gente conhece a nossa cultura, a nossa história, o que aconteceu, porque tem aquele nome, isso tudo dá força, o empoderamento e a gente perde o medo de abrir portas e chegar em locais. Perde até o medo de fazer perguntas, que é muito importante".